Domingo, 29 de Novembro de 2009

Rio Beça

Ocultos no coração das serras, atravessam corredores de labirintos naturais, fontes luxuriantes do Paraíso. São os rios que alimentam as marés tenebrosas, suportadas pela persistência de aventureiros navegadores.
O rio Beça, estrada cristalina, parece enlear três concelhos com raça transmontana - Boticas - Montalegre e Ribeira de Pena. Límpido para que lave a alma e a visão a todos aqueles que não querem ver, mesmo sabendo que na existência da erosão do granito onde se formam paredes sinuosamente íngremes, existe um seio de vida, de força e mesmo na fúria, vence a ternura.
Percorrendo religiosamente estes recantos, encontramos aqui e acolá, pescadores hábeis, fustigando a cana para lançar o anzol camuflado de isco, tentando iludir as trutas que se escondem entre troncos agarrados às faces das rochas, fazendo contorcer as raízes.
Neste leito imaculado, galopa a desilusão, aproximam-se torrentes de tormentas que não vencidas a jusante, trarão a míngua à herança legada por antepassados seculares.
O nascimento de indústrias nas margens destes deuses sagrados vêm adulterar o sentido de “ser” da mãe Natureza...! É preocupante instalar perto das margens desta via láctea terrena um aterro sanitário que, parecendo estar para trás das nossas costas, corre a grande velocidade para junto de nós!...
Transporta o Rio Beça as memórias de Camilo, que adormecia no encanto, não dando conta das horas, enamorado neste jardim do Éden que pode ser aqui mesmo...
O tempo foge-nos, quando tropeçamos nas margens deste percurso, quando escorregamos nas pedras cheias de lodo! Encontramos no Rio Beça o vocabulário de todas as riquezas humanas: Vida, Amor e Paz...
Este rio parece descansar quando banha prados verdejantes, onde se acotovelam inúmeras cabeças de gado maronês, onde a erva parece ver-se crescer. Este recurso hídrico acorda sobre o xisto de Padroselos, continua a servir de guarda à lavandaria abandonada do precioso minério rebuscado por estas gentes que, imitando as toupeiras, arriscavam a vida na ambição de um futuro mais próspero.
Vociferando o Beça, cuja força enche a barriga e dá à luz numa enorme represa que suporta a hídrica, potencial energético do concelho de Ribeira de Pena, esta represa alimenta ainda uma levada centenária que irriga a freguesia de Santo Aleixo.
Apressado, este rio não pára, enraivecido, ultrapassa tudo e todos, vai polindo o granito fazendo gemer as pedras... Passa o Ponderado, o Contador (onde as trutas são maiores), abraçando o Tâmega na garganta das montanhas que parecem querer enjaular Daivões, Veiga e Arosa.
Este rio, que é nosso, que temos de preservar e que, orgulhosamente, tive a felicidade de conhecer, que seja o santuário de mais um tesouro tão nobre que, estou certo, todos guardarão após conhecê-lo.

publicado por Trasmontesdepaisagens às 06:00

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1 comentário:
De Tupamaro a 29 de Novembro de 2009 às 13:02
Aqui, na Ponte do Torneiro, nesta pocita de água, já o Beça traz umas gotas que o Covas lhe acrescenta, um pouco mais acima, no Gardunho.
Se na época das chuvas andou por aí, talvez o caudal acrescentado por alguma chuvada tenha tornado optimista o olhar do autor, na viagem da Ponte até à foz. Ou então, fomos nós que calhámos sempre visitar o rio em dias de secura e os seixos e calhaus se mostravam mais gordos.
Mas nos seus ou nos nossos dias, ou seja em que dias for, o Beça (e o Covas ou até a ribeira de Gondiães) são de encantos incomensuráveis.
Se territórios há a merecer serem preservados, este, tão bem descrito pelo autor, é bem merecedor.
Já basta a falta de respeito com que o tratam os incendiários e os «eucaliptadores».

Tupamaro

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