Sábado, 8 de Maio de 2010

Carro de bois

 

 

 

 

Hoje os carros estão arrumados. Com o preço do petróleo a aumentar, há quem diga que ainda poderão ser úteis, outra vez. Em algumas terras enfeitam espaços públicos. Os animais, libertos da carga, criam-se só para engordar. Os carros eram feitos por carpinteiros. Hoje, os carpinteiros dedicam-se a outros trabalhos, mas há ainda quem saiba fazer os velhos carros de bois, os “estadulhos”, as “engarelas”, o eixo, as rodas, as “caniças”, tudo como seria preciso, se ainda o fosse, obedecendo às ancestrais medidas, ao desenho do costume. A vida de João António dos Santos não foi ser carpinteiro. Foi sobretudo um agricultor e “um dos bons”. Mas, aos 16 anos teve um curto período de aprendizagem, com um primo do seu pai, na aldeia de Baçal. Com a idade de 20 anos deixou a vida de aprendiz de carpintaria e ficou entregue à casa agrícola da família, em Varge. Depois casou e mudou-se para Baçal e continuou a fazer “uns biscates” em carpintaria, com o conhecimento que adquiriu com o primo. Esses biscates incluíam fazer alguns carros de bois ou compor os que se estragavam. “Fazíamos os carros, os engaços, as charruas, arados, portas, janelas. Agora isso acabou tudo”. Fez carros para várias aldeias, da Alta e Baixa Lombada, mas há cerca de 20 anos esse serviço parou. Hoje ainda tem, por terminar, um “último” carro de bois. Na arrecadação, na cerca do quintal onde guarda a criação de pintos, está um carro, que vai fazendo, quando lhe apetece. Esse carro, a ser terminado, nunca irá para os campos, trazer cargas de feno ou molhos de cereal. Quando tudo tinha que ser feito à mão, sem recurso a ferramentas eléctricas, um carro demorava, em média, um mês a ser feito. Agora, sem a pressa da necessidade, “faço um pau, se tenho vagar. Se não fizer, não faço. Isto é para estar aqui, não é para trabalhar”, explica. Ainda agora, mais de 50 por cento do trabalho de carpintaria tem que ser feito à maneira antiga, porque os cortes não são “em esquadria”, são curvos. “Tem que ser riscado com o garaminho, para ficar em redondo”. O garaminho é uma dessas velhas ferramentas, usadas para fazer os carros de bois. Além do corte, a marcação tem que ficar bem certa. Qualquer erro pode ser fatal, ou comprometer todo o trabalho. “Tem que ficar bem certinho, bem galgado. Se não, não serve. Eu aprendi pouco, mas um senhor que era bom carpinteiro, que era de Rabal e estava casado em Varge, sabia mais do que eu, dizia: aprendeste pouco, mas aprendeste a riscar bem. O que interessa é riscar bem. Marcar é essencial. Desde que se marque bem, já bate certo”. Segundo indica, “o mais difícil de fazer eram as rodas. A enxeda tem uns quereres, mas as rodas têm outro”. Os carros tinham por norma certas mediadas, cumpridas na generalidade. “As medidas do carro: é assim, o estadulhal tem um metro e 60, a rabiça um metro e 60 a caniça é 90 centímetros”. Isto, claro para os carros de bois. Já os carros para os burros, ou machos, eram mais pequenos, eram carroças. Quanto à madeira utilizada, varia conforme as partes do carro. “As estadulhetas pertencem a ser de freixo, a tritoura também, o coucilham tem que ser de amieiro, as travessas de negrilho, o soalho de negrilho, quase tudo de negrilho... O eixe de freixo. Havia também quem pusesse de sardão, um por acaso. As rodas eram de freixo ou de negrilho, porque as outras plantas não davam. O carro tem um metro e 20 de diâmetro. Portanto, tinha que ser uma torada grande e o sardão não a deitava. O carvalho não serve para nada. As caniças, para ficarem mais levezinhas, podiam ser de choupo, mas o resto não, porque o choupo parte com facilidade”. Assim se faz um carro, para quem ainda queira aprender. João António diz-nos que não fez nunca nenhum para enfeite. Tirando este que está ainda a fazer, que ficará para recordação, ou para esquecimento, dos tempos em que os carros cantavam, como há muitos séculos, quando traziam às aldeias o fruto do suor dos homens e animais.

 

publicado por Trasmontesdepaisagens às 00:10

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